- O que vai fazer a seguir?
- Vou tomar banho.
- E a seguir?
- Vou comer.
- E a seguir?
- Vou dormir.
- E a seguir?
- Quando acordar?
- Sim.
- Vou comer outra vez e vou à casa de banho.
- E vai fumar um cigarro?
- Não estou a planear fumar um cigarro, mas não prometo nada.
- Então o que está a planear fazer?
- Essa pergunta é muito pessoal.
- Não quer dizer quais são os seus planos?
- Não.
- Porquê?
- Porque tal como disse, são meus.
- Nunca fala com ninguém sobre os seus planos?
- Às vezes falo, com pessoas próximas e em quem confio.
- Os seus planos são ambiciosos?
- Depende do que entende por ambicioso. Essa palavra é muito relativa.
- Os seus planos são de curto, médio ou longo prazo?
- São de curto/médio prazo, mas os sonhos são de longo prazo.
- E os sonhos? Costuma partilhar com alguém os seus sonhos?
- Não. Ainda estou a reaprender a "partilhá-los" comigo.
- Quando era criança, o que queria "ser" quando fosse grande?
- Veterinária.
- O que sente, hoje, por não ser veterinária?
- Neste momento não tenho vontade de ser veterinária. Não me arrependo de não ter seguido esse caminho.
- Está contente com o seu percurso?
- Sim. Começa agora a fazer sentido. Consigo compreender por que motivo tudo aconteceu desta forma e não de outra.
- O que sente em relação ao futuro?
- O futuro não me assusta.
- Porquê? Pensa que sabe, de alguma forma, que vai ser favorável? É uma optimista?
- Em relação ao futuro sei muito pouco. Estou cansada de tentar prever o futuro. Tem sido uma luta. Custe o que custar, tenho de me convencer que jamais conseguirei prever o futuro. O "destino" está sempre a trocar-me as voltas. Muitas vezes convenço-me que sei o que vai acontecer a seguir, mas nunca acerto porque o futuro não depende só de mim. Para conseguir prever o futuro seria necessário conseguir prever também o dos outros. Isso é muito difícil.
- Difícil ou impossível?
- Ora aí está uma boa pergunta.
- E qual é a resposta?
- Não sei.
sexta-feira, 2 de janeiro de 2015
quarta-feira, 17 de dezembro de 2014
quinta-feira, 27 de novembro de 2014
"- O senhor... o senhor disse uma vez que estava disposto a dar uma vista de olhos à minha tese, quando já estivesse avançada.
- Sim - confirmou Stoner, assentindo com a cabeça. - Pois disse. Claro. - Depois, pela primeira vez, reparou que ela tinha um dossiê no colo.
- Claro que se estiver ocupado... - disse, hesitante.
- Não, não estou - retorquiu Stoner, tentando infundir algum entusiasmo na voz. - Desculpe. Não queria parecer distraído.
Hesitante, ela estendeu-lhe o dossiê. Stoner pegou nele, sopesou-o e sorriu.
- Pensei que estivesse mais avançada do que isto - comentou.
- E estava - respondeu ela. - Mas recomecei tudo do zero. Decidi mudar a minha abordagem e... agradecia muito que me desse a sua opinião.
Ele sorriu novamente e fez que sim com a cabeça; não sabia o que dizer. Ficaram sentados, num silêncio constrangido, durante uns minutos.
Por fim, ele disse:
- Quando é que precisa que eu lhe devolva a tese?
Ela abanou a cabeça.
- Quando quiser. Quando puder.
- Não quero atrasá-la - disse ele. - E se for esta sexta-feira? Parece-me o tempo suficiente para eu ler tudo. Que tal às três horas?
Ela levantou-se abruptamente tal como se sentara
- Obrigada. Não quero incomodá-lo. Obrigada. - E, virando as costas, saiu, esguia e muito direita, do gabinete.
Durante uns momentos, Stoner ficou a olhar fixamente para o dossiê que tinha nas mãos. Depois, pousou-o na secretária e retomou a correcção dos trabalhos do primeiro ano.
Isto passou-se numa terça feira e, nos dois dias que se seguiram, o manuscrito permaneceu em cima da secretária sem ele lhe tocar. Por motivos que não compreendia totalmente, não conseguia abrir o dossiê e começar a leitura que, uns meses antes, teria sido um prazer. Observou-o, desconfiado, como se fosse um inimigo que estivesse a atiçá-lo de novo para uma guerra a que renunciara.
E quando chegou a sexta-feira, ainda não o lera. Viu-o pousado, acusador, em cima da mesa, de manhã, quando recolheu os livros e os papéis para a aula das oito. Quando regressou, pouco depois das nove, quase decidiu deixar um bilhete na caixa do correio de Miss Driscoll, na secretaria, a pedir mais uma semana, mas decidiu dar uma vista de olhos à tese, antes da aula das onze, e dizer umas palavras rotineiras à rapariga, quando passasse pelo seu gabinete à tarde. Não conseguiu fazê-lo, porém, e antes de sair para a sua última aula do dia pegou no dossiê, enfiou-o entre o resto da papelada e atravessou o recinto universitário a passo acelerado em direcção à sala.
Quando a aula acabou, ao meio-dia, foi retido por uns alunos que precisavam de falar com ele, de modo que passava da uma da tarde quando conseguiu despachar-se. Dirigiu-se, com uma espécie de determinação carrancuda, para a biblioteca. Tencionava arranjar uma sala vazia e fazer uma leitura apressada do manuscrito, durante uma hora, antes da reunião com Miss Driscoll, às três.
Mas até no sossego penumbroso e familiar da biblioteca, num recanto vazio que encontrou, escondido nas profundezas das estantes, teve dificuldade em obrigar-se a olhar para o dossiê que levava consigo. Abriu outros livros e leu alguns parágrafos ao acaso; sentou-se, imóvel, inspirando o cheiro a bafio que se desprendia dos livros antigos. Por fim, suspirou. Incapaz de protelar mais, abriu o dossiê e olhou rapidamente para as primeiras páginas."
- Sim - confirmou Stoner, assentindo com a cabeça. - Pois disse. Claro. - Depois, pela primeira vez, reparou que ela tinha um dossiê no colo.
- Claro que se estiver ocupado... - disse, hesitante.
- Não, não estou - retorquiu Stoner, tentando infundir algum entusiasmo na voz. - Desculpe. Não queria parecer distraído.
Hesitante, ela estendeu-lhe o dossiê. Stoner pegou nele, sopesou-o e sorriu.
- Pensei que estivesse mais avançada do que isto - comentou.
- E estava - respondeu ela. - Mas recomecei tudo do zero. Decidi mudar a minha abordagem e... agradecia muito que me desse a sua opinião.
Ele sorriu novamente e fez que sim com a cabeça; não sabia o que dizer. Ficaram sentados, num silêncio constrangido, durante uns minutos.
Por fim, ele disse:
- Quando é que precisa que eu lhe devolva a tese?
Ela abanou a cabeça.
- Quando quiser. Quando puder.
- Não quero atrasá-la - disse ele. - E se for esta sexta-feira? Parece-me o tempo suficiente para eu ler tudo. Que tal às três horas?
Ela levantou-se abruptamente tal como se sentara
- Obrigada. Não quero incomodá-lo. Obrigada. - E, virando as costas, saiu, esguia e muito direita, do gabinete.
Durante uns momentos, Stoner ficou a olhar fixamente para o dossiê que tinha nas mãos. Depois, pousou-o na secretária e retomou a correcção dos trabalhos do primeiro ano.
Isto passou-se numa terça feira e, nos dois dias que se seguiram, o manuscrito permaneceu em cima da secretária sem ele lhe tocar. Por motivos que não compreendia totalmente, não conseguia abrir o dossiê e começar a leitura que, uns meses antes, teria sido um prazer. Observou-o, desconfiado, como se fosse um inimigo que estivesse a atiçá-lo de novo para uma guerra a que renunciara.
E quando chegou a sexta-feira, ainda não o lera. Viu-o pousado, acusador, em cima da mesa, de manhã, quando recolheu os livros e os papéis para a aula das oito. Quando regressou, pouco depois das nove, quase decidiu deixar um bilhete na caixa do correio de Miss Driscoll, na secretaria, a pedir mais uma semana, mas decidiu dar uma vista de olhos à tese, antes da aula das onze, e dizer umas palavras rotineiras à rapariga, quando passasse pelo seu gabinete à tarde. Não conseguiu fazê-lo, porém, e antes de sair para a sua última aula do dia pegou no dossiê, enfiou-o entre o resto da papelada e atravessou o recinto universitário a passo acelerado em direcção à sala.
Quando a aula acabou, ao meio-dia, foi retido por uns alunos que precisavam de falar com ele, de modo que passava da uma da tarde quando conseguiu despachar-se. Dirigiu-se, com uma espécie de determinação carrancuda, para a biblioteca. Tencionava arranjar uma sala vazia e fazer uma leitura apressada do manuscrito, durante uma hora, antes da reunião com Miss Driscoll, às três.
Mas até no sossego penumbroso e familiar da biblioteca, num recanto vazio que encontrou, escondido nas profundezas das estantes, teve dificuldade em obrigar-se a olhar para o dossiê que levava consigo. Abriu outros livros e leu alguns parágrafos ao acaso; sentou-se, imóvel, inspirando o cheiro a bafio que se desprendia dos livros antigos. Por fim, suspirou. Incapaz de protelar mais, abriu o dossiê e olhou rapidamente para as primeiras páginas."
John Williams, Stoner
sábado, 1 de novembro de 2014
sexta-feira, 31 de outubro de 2014
"É assim (e só isto interessa): por vezes o Destino de um homem não chega a tempo;"
Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia
Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia
sábado, 18 de maio de 2013
"Agora os vizinhos percebiam que haviam presenciado uma grande maravilha. Sabiam que o tempo passaria a contar-se a partir do aparecimento da pérola de Kino e que aquele momento seria falado por muitos anos. E que, quando aquelas coisas pertencessem ao passado, contariam como Kino olhava, o que dizia, como os olhos lhe brilhavam, e diriam: «Era um homem transfigurado. Foi-lhe concedido um poder que começou naquele dia. Vejam em que grande homem se tornou. Vi tudo isso com os meus próprios olhos».
E se os projectos de Kino se não realizassem, aqueles mesmos vizinhos haviam de dizer: «Começou assim. Apoderou-se dele uma loucura tal que dizia os maiores disparates. Que Deus nos livre disso! Sim, Deus castigou Kino porque ele se revoltou contra o destino. Vejam em que se tornou. Eu próprio estava presente quando perdeu a razão!»"
E se os projectos de Kino se não realizassem, aqueles mesmos vizinhos haviam de dizer: «Começou assim. Apoderou-se dele uma loucura tal que dizia os maiores disparates. Que Deus nos livre disso! Sim, Deus castigou Kino porque ele se revoltou contra o destino. Vejam em que se tornou. Eu próprio estava presente quando perdeu a razão!»"
John Steinbeck, A Pérola
domingo, 3 de março de 2013
"Porque, fazendo sair os indivíduos da «crença», os deixou num limbo de «luz fria», e sem perspectivas de redenção. Vale a pena ouvir Llansol, que, em dois parágrafos, sintetiza a problemática do intelectual, da razão que não vê, da aventura do indivíduo moderno - e da sua possível saída do impasse:
«Chegara o momento de arrancar o homem ao aconchego do medo, de lhe dar a provar o gosto da incerteza. A bebida inebriante dos nómadas. A transparência e o absoluto não são lugares para o homem. Era preciso dar-lhe o toque para que se lançasse na grande viagem a que todos aspiravam. O grande êxodo da liberdade e consciência. Eu sempre soube que a razão não serve para ver. Esse, o equívoco da nossa aliança que transformou a liberdade de consciência em conquista, que fez de cada ponto de apoio no território uma fronteira; cada fronteira a delimitar espaços de exploração; cada diferença que encontrava, uma exclusão. E o mundo tornou-se como a razão o escreveu: veloz, exponencial, crítico, memória acumulada de despossessão. [...] A liberdade de consciência é uma fonte inesgotável de angústia e de vontade de rapina. Porque as crenças, quase todas elas, participaram na rapina, à conquista de mais almas, num ódio profundo à liberdade de consciência que, tê-la, é a única maneira de escolher. A crença não vai desistir de usar o medo e o gregarismo, nem a razão vai deixar de jogar a cartada do seu peso político-industrial. E eu pergunto a mim mesmo [a partir daqui é o próprio Texto, a Obra, que fala] - para que serve a liberdade de consciência sem o dom poético? [...] Eu actuo, e não sou prático... Cresço com actos, e sem estratégia. Porque esta é como a crença - enreda a pujança, e definha o homem. Em mim, tudo cresce e nada é meio de nada.» (Llansol: 1994)."
«Chegara o momento de arrancar o homem ao aconchego do medo, de lhe dar a provar o gosto da incerteza. A bebida inebriante dos nómadas. A transparência e o absoluto não são lugares para o homem. Era preciso dar-lhe o toque para que se lançasse na grande viagem a que todos aspiravam. O grande êxodo da liberdade e consciência. Eu sempre soube que a razão não serve para ver. Esse, o equívoco da nossa aliança que transformou a liberdade de consciência em conquista, que fez de cada ponto de apoio no território uma fronteira; cada fronteira a delimitar espaços de exploração; cada diferença que encontrava, uma exclusão. E o mundo tornou-se como a razão o escreveu: veloz, exponencial, crítico, memória acumulada de despossessão. [...] A liberdade de consciência é uma fonte inesgotável de angústia e de vontade de rapina. Porque as crenças, quase todas elas, participaram na rapina, à conquista de mais almas, num ódio profundo à liberdade de consciência que, tê-la, é a única maneira de escolher. A crença não vai desistir de usar o medo e o gregarismo, nem a razão vai deixar de jogar a cartada do seu peso político-industrial. E eu pergunto a mim mesmo [a partir daqui é o próprio Texto, a Obra, que fala] - para que serve a liberdade de consciência sem o dom poético? [...] Eu actuo, e não sou prático... Cresço com actos, e sem estratégia. Porque esta é como a crença - enreda a pujança, e definha o homem. Em mim, tudo cresce e nada é meio de nada.» (Llansol: 1994)."
João Barrento, O MUNDO ESTÁ CHEIO DE DEUSES - crise e crítica do contemporâneo
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