Henry Miller, dias de clichy
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quarta-feira, 15 de julho de 2015
"Um sonho rico e fecundo, visto através de uma luz mística. Eu tinha mergulhado até aquele nível perigoso onde, por puro êxtase e encanto, volta-se ao fungo primário. Eu sabia, embora de maneira nebulosa, sonolenta e estonteante, que devia fazer um esforço hercúleo para retornar à tona. A luta era tremenda, agonizante, formidável. De vez em quando eu conseguia abrir os olhos: e via o meu quarto como que através de um nevoeiro, mas sentia que o meu corpo continuava mergulhado nas profundidades marítimas. Tornar a desmaiar era uma sensação voluptuosa. Eu caía sem parar, sem alcançar o fundo que não tinha fundo e onde, eu mesmo, estava esperando por mim como um tubarão esfomeado. Depois, muito lentamente, recomeçava a subir, a voltar à tona. Era um verdadeiro martírio. Era de cortiça, mas não podia nadar. Quase ao chegar à tona, mergulhava outra vez, arrastado para baixo, cada vez mais para baixo, num desamparo delicioso, sugado por um redemoinho, para ficar aguardando, lá bem no fundo, pela passagem de um tempo quase sem fim - a fim de que a vontade criasse novas forças capazes de me devolverem à tona como se eu fosse uma bóia afundada."
terça-feira, 5 de junho de 2012
"Sermos nós próprios, unicamente nós próprios, é algo de extraordinário. Mas como chegar a isso, como alcançá-lo? Ah!, eis o truque mais difícil de todos. Difícil, precisamente porque não envolve qualquer esforço. Tentas não ser isto nem aquilo, nem grande nem pequeno, nem hábil nem desajeitado... estás a perceber? Fazes o que te vem à mão. De boa vontade, bien entendu. Porque nada há no mundo que não tenha a sua importância. Nada. Em vez de risos e aplausos recebes sorrisos. Pequenos sorrisos de satisfação - e é tudo. Mas é justamente o próprio tudo... mais do que alguém pode pedir. Fazendo o trabalhinho sujo, alivias as pessoas dos seus fardos. Isso torna-as felizes, mas a ti torna-te ainda mais feliz, compreendes? É claro que deves fazê-lo sem ostentação, por assim dizer. Nunca deves mostrar-lhes o prazer que te dá. Se te deixas apanhar, se te descobrem o segredo, estás perdido. Chamar-te-ão egoísta, faças por elas o que fizeres. Podes fazer tudo por elas - chegares mesmo a matar-te de trabalho - enquanto não suspeitarem que te estão a enriquecer dando-te uma alegria que nunca poderias dar a ti próprio..."
Henry Miller, "O sorriso ao pé das escadas"
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