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domingo, 24 de maio de 2015

"Claro que a ideia de liberdade é sempre definida de modo grosseiro. Como lembra Fourier: "Quando o rei Luís XVI, bloqueado nas Tulherias pelos partidários da Convenção, era obrigado a assinar todos os decretos que lhe punham à frente" foi feita uma gravura que "o representou fechado na prisão, com as mãos fora das grades, a escrever: Sou livre". (Fourier, Charles - Fourier. Escolha de textos, tradução, prefácio e notas de Ernesto Sampaio, 1996, p. 58, Salamandra)"

Gonçalo M. Tavares, Atlas do corpo e da imaginação

terça-feira, 19 de maio de 2015

"Como defende Novalis, o papel do artista, do criador, é unir "sem cessar extremos opostos" e "quanto mais opostos melhor". Unir sem cessar pressupõe unir coisas desunidas, desligadas, e quanto mais afastadas, quanto mais improvável a sua ligação, melhor. Digamos que há ligações colectivas, ligações previsíveis, ligações não imaginativas, ligações que ligam coisas próximas, e, do outro lado, ligações individuais, privadas, no sentido em que não pertencem a mais ninguém e não são copiáveis, são surpreendentes; ligações que só podem ser feitas por indivíduos livres, desligados de fórmulas fixas, porque estas emperram, colocam-se à frente da imaginação e impedem o seu funcionamento.
Ver as coisas do mundo desligadas entre si é um ponto de partida para a imaginação, como se viu atrás. Se tudo está desligado, tudo pode ser ligado, sem qualquer ordem pré-definida."

Gonçalo M. Tavares, Atlas do corpo e da imaginação

sábado, 9 de maio de 2015

"Mas claro que a existência de dor no outro é algo que provoca ambiguidade em quem o ama, pois "ao mesmo tempo que me identifico 'sinceramente' com a infelicidade do outro, o que leio nessa infelicidade é que ela existe sem mim e que, sendo infeliz por si próprio, o outro me abandona: se ele sofre sem que eu seja a causa, é porque não significo nada para ele: o seu sofrimento anula-me na medida em que existe fora de mim próprio."
Esta necessidade (egoísta) de responsabilidade exclusiva pela dor do outro - que mais ninguém seja responsável pela tua dor senão eu - coloca a par a unidade e a exclusividade na origem do sofrimento. Se mais ninguém existe senão tu, por onde mais poderei sofrer? Ou, sob outro ponto de vista: eu sou o proprietário da tua dor.
Como alguém que realmente leva no bolso a chave que abre o cofre das dores do outro, numa estranha mistura entre bondade e instinto perverso. Porque um cofre é uma caixa que se pode fechar ou abrir. E quem tem a chave decide.
No fundo, devemos recordar essa pergunta fundamental que surge em O Salteador de Robert Walser:
"As pessoas que vivem consigo são felizes?""

Gonçalo M. Tavares, Atlas do corpo e da imaginação

sábado, 2 de maio de 2015

"O homem encostado à parede, cansado de caminhar de um lado para o outro, livre (de movimentos) para resolver os problemas do dia-a-dia: o apetite, o frio, o desconforto, a solidão. E do outro lado os meios de resolução: o trabalho, o amor, a amizade - e esse homem que não pára, sempre de um lado para o outro, a uma certa velocidade; homem do movimento porque é livre, homem esse que, finalmente, num certo momento, se cansa de não parar, e exige a si próprio - e talvez ao mundo - a imobilidade; e com ela exige ainda algo mais obsceno: não quero mais ser livre, podem ficar com os meus movimentos, com as minhas possibilidades, deixem-me apenas uma, uma única possibilidade: a de permanecer vivo: todos os outros movimentos façam-nos por mim. Homem (imaginemos) cansado dos movimentos que o trabalho exige, dos movimentos que o amor e a amizade exigem e que, a certa altura, pede apenas a satisfação do apetite e a manutenção do circuito respiratório: não quero mais, quero o mesmo; não quero mudar.
Porém, há uma velocidade não-humana, uma velocidade que pertence exclusivamente ao reino da Natureza e cujo motor estará localizado num sítio ao qual as mãos humanas jamais chegarão; e essa velocidade, esse movimento que atravessa o mundo e domina a biologia, jamais cessa."

Gonçalo M. Tavares, Atlas do corpo e da imaginação

quarta-feira, 22 de abril de 2015

"Burroughs relata um episódio elucidativo: "Vi um filme em que havia um balão que subitamente e inesperadamente encheu e desatou a subir ares fora. As pessoas que seguravam os cabos não largaram e foram arrebatadas e a maior parte delas não tinha QI de sobrevivência suficiente que lhe permitisse largar a tempo. Segundos depois estão já, a trezentos metros do chão, sessenta pessoas. Os que não largaram a corda caíram a mil ou a mil e quinhentos metros do chão. Uma lição fundamental em sobrevivência é aprender a largar.""

Gonçalo M. Tavares, Atlas do corpo e da imaginação

terça-feira, 21 de abril de 2015

"Enquanto na realidade exterior os referenciais são comuns, físicos, partilháveis, não egoístas, em relação à realidade interior, aos sentimentos, às sensações, os referenciais são sempre absolutamente centrados no Eu. É a partir de mim, das minhas sensações, que eu posso perceber as sensações dos outros, enquanto, por exemplo, na medição de um terreno, é a partir de uma certa convenção instrumental e processual que eu percebo as distâncias e os tamanhos. Para medir o exterior há réguas públicas, colectivas; para medir o interior há apenas réguas privadas, diferentes entre si, impartilháveis.
O facto de duas pessoas conversarem sobre o que sentem é quase um milagre, e entra num campo completamente diferente (num campo quase misterioso) daquele que existe, com muito maior objectividade, na conversa acerca de acontecimentos do mundo - fora de cada corpo, portanto.
Pergunta, então, Wittgenstein, pegando no exemplo de uma pessoa com dores:
"Não teríamos seguramente pena dela se não acreditássemos que ela tinha dores; mas será que esta é uma crença filosófica, metafísica? Terá um realista mais pena de mim do que um idealista ou um solipsista?"
Eis uma pergunta que coloca tudo em jogo. Eu tenho de confiar no que o outro diz que sente. Estamos no campo da crença individual, e a crença individual isola, inevitavelmente, um indivíduo de outro."

Gonçalo M. Tavares, Atlas do corpo e da imaginação

segunda-feira, 20 de abril de 2015

actos e ética
"Certos pensamentos funcionam como murros, como movimentos de quebrar abruptamente uma ligação que há muito parecia estabelecida e por isso mesmo definitiva. Murros, empurrões, beliscões, abraços: todos estes movimentos físicos poderão ser registados também entre uma pessoa e a sua interpretação do mundo; como se realmente fossem duas entidades: o corpo em si, com os seus braços, a sua pele, os seus sentimentos, pensamentos e órgãos, e uma certa consciência global, não definível por completo, mas em que se fundam todos os pequenos actos. Actuamos de determinada forma sobre a erva daninha do jardim porque temos uma concepção do mundo. Mato ou não mato o minúsculo caracol que passa à minha frente porque tenho (ou não) uma determinada filosofia da existência.
Por vezes, claro, agimos imprudentemente e sem consciência contra a nossa visão do mundo; e daí o arrependimento. Estar arrependido é tomar consciência de que um determinado acto praticado por nós foi contra a nossa visão do mundo: esse acto escapou-me, podemos dizer. Escapou ao nosso controlo, ou melhor, escapou ao controlo do nosso sistema de interpretação dos acontecimentos. E interpretar não é mais do que atribuir, em primeira análise, uma marca de bondade ou maldade a um acto. Interpretar é julgar, e há dois tipos de acções individuais: a acção que acontece antes de ser julgada pelo próprio indivíduo, instintiva; e a acção que acontece depois de ser julgada pelo indivíduo, planeada. Nesse sentido, todas as acções que são executadas depois de uma prévia reflexão sobre os seus efeitos são executadas porque foram julgadas como boas. Porém, grande parte dos actos maus foram praticados depois de planeados. Sei que este acto pertence à categoria da maldade, mas mesmo assim vou fazê-lo. Ou pior: por isso mesmo vou fazê-lo."

Gonçalo M. Tavares, Atlas do corpo e da imaginação

domingo, 19 de abril de 2015

"Tese curiosa, esta: em vez de se formalizarem leis para impedir as más práticas humanas, desenvolver-se-ia sim a técnica de modo a que esta consiga alterar a Natureza, fazendo-a mais resistente às práticas humanas; por exemplo: em vez de se proibir o despejo de produtos poluentes na água, desenvolver uma técnica que faça com que a água suporte, com indiferença, tais despejos poluentes; e mais: que a água consiga transformar esses produtos poluentes em produtos bons para o Homem e para si própria, Natureza. Os problemas causados pelo desenvolvimento da técnica seriam então corrigidos com mais técnica e não com leis limitativas do comportamento dos homens e da sociedade. Uma proposta original, uma possibilidade que o pensamento não deve ignorar."

Gonçalo M. Tavares, Atlas do corpo e da imaginação

sábado, 18 de abril de 2015

""O mais curioso é que neste mundo de máquinas e de caminhos de ferro", diz uma das personagens, "enquanto circulam os comboios e trabalham as fábricas, dois homens se defrontem e disparem um contra o outro." Espanta, pois, que no meio desta transformação do mundo mole em mundo duro se mantenham emoções - se mantenha o ódio.
Continua Bertrand, uma das personagens do romance: "O que chamamos sentimentos constitui o que há de mais persistente no nosso ser. Trazemos connosco um fundo indestrutível de conservadorismo. São os sentimentos, ou antes, convenções sentimentais."
Como se o progresso não chegasse nunca a tocar, muito menos a alterar, esse fundo do corpo, essa parte anterior e antiga - a parte que sente. Eis que, lá no fundo, algo no corpo humano, continua - utilizemos de novo a palavra - mole. No entanto, tal diagnóstico não determina o final, o final ainda não chegou: algo se poderá ainda alterar: "Eu penso que o nosso sentimento da vida caminha sempre com um atraso de meio ou mesmo de um século em relação à verdadeira vida, à vida real."
Algo que ainda não progrediu o suficiente - esse tal «sentimento de vida», esse corpo que sente é um corpo desactualizado: "O sentimento é, de facto, sempre menos humano que a vida no meio da qual nos encontramos."
Sentimos ainda, ou o corpo ainda sente porque ainda não evoluiu o bastante; o sentimento "é preguiçoso", e o mundo é dominado "pela preguiça do sentimento".
É como se os sentimentos humanos estivessem ainda no século XIX e a técnica já no século XXI."

Gonçalo M. Tavares, Atlas do corpo e da imaginação

sexta-feira, 17 de abril de 2015

"Eis uma história, de entre as "Histórias do Sr. Keuner", contada por Arendt, curiosamente numa crítica a certas atitudes políticas de Brecht: «Em tempos sombrios», conta uma das histórias, «um agente do poder chegou a casa de um homem que 'aprendera a dizer não'. O agente confiscou a casa e os víveres do homem e perguntou-lhe: 'Queres ser meu criado?' O homem meteu-o na cama, tapou-o com um cobertor, velou-o durante o sono, e obedeceu-lhe durante sete dias. Mas fez tudo isto sem pronunciar uma palavra. Ao cabo dos sete dias, o agente estava gordo de tanto comer, dormir e dar ordens, e morreu. O homem embrulhou-o no cobertor imundo, pô-lo fora de casa, lavou a cama, pintou as paredes de novo, suspirou de alívio e respondeu: 'Não'.»"

Gonçalo M. Tavares, Atlas do corpo e da imaginação

sábado, 11 de abril de 2015

"Estar mais perto nem sempre é ver melhor. A emoção pode, neste sentido, ser considerada como um ver perto de mais. Como nas palavras de Llansol: «chora em vez de ver»."

Gonçalo M. Tavares, Atlas do corpo e da imaginação

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

"É assim (e só isto interessa): por vezes o Destino de um homem não chega a tempo;"

Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia

quinta-feira, 23 de junho de 2011

"E Bloom pensou então nesse caixão público
que são os dias. Em cada dia enterram-se mais de dez mil
pessoas no mundo inteiro. É um dia público,
ordinário, grotesco, impúdico, onde se enterram
[anonimamente
velhos, crianças, mulheres, homens fortes, magros e
[anafados.
Os dias (cada dia) são uma vala comum,
pensava Bloom. Se não têm cuidado
os dias ganham doenças. (Mas sobre a terra, graças a Deus,
cada dia rapidamente cede lugar a outro.)"


Gonçalo M. Tavares, "Uma Viagem à Índia"

quarta-feira, 8 de junho de 2011

"Porém, o mar é uma
parede deitada: embora tenhas essa ilusão não podes
passar através dele.
Se beijares o mar ou se o agredires com um murro, vê:
o que lhe fizeste só em ti tem efeitos. E eis a definição de
um elemento forte."

Gonçalo M. Tavares, "Uma Viagem à Índia"

quarta-feira, 1 de junho de 2011

"Tudo necessita de constante atenção e
aperfeiçoamento, até o Eterno. Se o Eterno
é hoje o mesmo que era no século XII então
percebe-se a desligação geral do povo
às orações com frases desactualizadas.
O Eterno cheira a século XII, poderia
gritar um provocador bem informado,
mas o importante é isto: até o imutável
se não mudar será empurrado. O céu, na minha opinião,
tornou-se um lugar parado de mais."

Gonçalo M. Tavares, "Uma Viagem à Índia"

sexta-feira, 27 de maio de 2011

"Os festejos são assunto táctil,
a alegria só é sonora para o exterior,
mas nada é feliz com a cabeça de fora.
O júbilo sai sem um único som acompanhando.
O som é o elemento falso das coisas.
Falar, cantar, fazer barulho disforme,
tudo faz parte de um anexo do corpo,
pois tu és um organismo interior, caro Bloom,
bem como todos os humanos. Sentir não tem som,
isso é mais que evidente."

Gonçalo M. Tavares, "Uma Viagem à Índia"

quarta-feira, 18 de maio de 2011

"Sim, é verdade que o comércio meteu a Natureza
em caixas com um preço. Mas tal não é terrível nem
sequer desagradável. Bem pior são certas crianças
que arrancam uma das patas a um sapo que teve o azar
de servir de objecto aos exercícios ingénuos de seres vivos
com seis anos. Entre ser vendida inteira
por comerciantes careiros ou ser fragmentada por crianças
que não sabem o valor do dinheiro, a Natureza
optará sempre pelo pacífico capitalismo.

Porque o capitalismo sabe que uma mercadoria
sem uma das patas vale menos:
por isso não arranca patas ou orelhas,
ou cabeças inteiras à dentada. Mas se valesse mais até
arrancavam
uma das patas da Torre Eiffel - exclamou Jean M.
Não te iludas com monumentos nem com cerimónias.
A estética terminou. Ficou o dinheiro.
Os homens são génios do bem para o ouro,
génios do mal para a paisagem."


Gonçalo M. Tavares, "Uma Viagem à Índia"

terça-feira, 17 de maio de 2011

"Os sofrimentos
não são todos da mesma espécie animal:
de uns, sais aperfeiçoado - pensa Bloom -,
de outros, canino e obediente."

"só existe idade madura no corpo que
atravessou uma doença ou a compreendeu."


Gonçalo M. Tavares, "Uma Viagem à Índia"

sábado, 14 de maio de 2011

"Falar (ou mesmo escrever) entretém,
pode convencer, seduzir - mas jamais resolve."

"As palavras, por exemplo, não são práticas nem úteis,
enrolam-se nos dedos, interferem nos factos.
Quando muito explicam - mas tal não é solução."


Gonçalo M. Tavares, "Uma Viagem à Índia"

sábado, 30 de abril de 2011

"Uma garrafa de vinho por dia, dois versos;
uma investida erecta no bordel principal da cidade,
mais verso, verso e meio, no regresso a casa,
sair (depois) à janela
para insultar os burgueses que passam,
eis como se diverte um poeta."


Gonçalo M. Tavares, "Uma Viagem à Índia"