actos e ética
"Certos pensamentos funcionam como murros, como movimentos de quebrar abruptamente uma ligação que há muito parecia estabelecida e por isso mesmo definitiva. Murros, empurrões, beliscões, abraços: todos estes movimentos físicos poderão ser registados também entre uma pessoa e a sua interpretação do mundo; como se realmente fossem duas entidades: o corpo em si, com os seus braços, a sua pele, os seus sentimentos, pensamentos e órgãos, e uma certa consciência global, não definível por completo, mas em que se fundam todos os pequenos actos. Actuamos de determinada forma sobre a erva daninha do jardim porque temos uma concepção do mundo. Mato ou não mato o minúsculo caracol que passa à minha frente porque tenho (ou não) uma determinada filosofia da existência.
Por vezes, claro, agimos imprudentemente e sem consciência contra a nossa visão do mundo; e daí o arrependimento. Estar arrependido é tomar consciência de que um determinado acto praticado por nós foi contra a nossa visão do mundo: esse acto escapou-me, podemos dizer. Escapou ao nosso controlo, ou melhor, escapou ao controlo do nosso sistema de interpretação dos acontecimentos. E interpretar não é mais do que atribuir, em primeira análise, uma marca de bondade ou maldade a um acto. Interpretar é julgar, e há dois tipos de acções individuais: a acção que acontece antes de ser julgada pelo próprio indivíduo, instintiva; e a acção que acontece depois de ser julgada pelo indivíduo, planeada. Nesse sentido, todas as acções que são executadas depois de uma prévia reflexão sobre os seus efeitos são executadas porque foram julgadas como boas. Porém, grande parte dos actos maus foram praticados depois de planeados. Sei que este acto pertence à categoria da maldade, mas mesmo assim vou fazê-lo. Ou pior: por isso mesmo vou fazê-lo."
Gonçalo M. Tavares, Atlas do corpo e da imaginação
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