“Daí a velha parábola sobre um empresário nova-iorquino que, de férias, começa a conversar com um pescador mexicano. O pescador diz-lhe que trabalha apenas algumas horas por dia e passa a maior parte do tempo a beber vinho ao sol e a tocar música com os amigos. Horrorizado com a abordagem do pescador à gestão do tempo, o empresário oferece-lhe um conselho não solicitado: se trabalhasse mais horas, explica ao pescador, poderia investir os lucros numa frota maior de barcos, pagar a outras pessoas para pescar, ganhar milhões e reformar-se mais cedo. «E o que faria depois?», pergunta o pescador. «Ah, bem, depois», responde o empresário, «podia passar os dias a beber vinho ao sol e a tocar música com os seus amigos.»
Um claro exemplo de como a pressão capitalista para a instrumentalização do tempo retira significado à vida é o notório caso dos advogados especializados em Direito Societário. A jurista académica católica Cathleen Kaveny defendeu que o motivo por que tantas pessoas são infelizes — apesar de serem geralmente muito bem pagas — é a convenção da «hora faturável», que as obriga a tratar o seu tempo e, no fundo, a tratarem-se a si mesmas, como uma mercadoria vendida aos clientes em parcelas de sessenta minutos. Uma hora que não é vendida é uma hora desperdiçada. Assim, quando um advogado, aparentemente com muito sucesso e que cobra uma fortuna, não está presente num jantar de família, ou na peça da escola do filho, não é necessariamente por estar «demasiado ocupado», no sentido óbvio de ter demasiadas coisas para fazer. Também pode ser porque já não consegue conceber uma atividade que não pode ser paga como uma coisa que vale a pena fazer. Como escreve Kaveny, «os advogados imbuídos com a filosofia da hora faturável têm dificuldade em compreender uma noção não comercial do significado do tempo, o que lhes permitiria apreciar o verdadeiro valor dessa participação». Quando uma atividade não pode ser acrescentada ao taxímetro das horas faturáveis, começa a parecer um luxo que não podem permitir-se. Pode haver muito mais desta filosofia na maioria das pessoas — mesmo naquelas que não são advogadas — do que estamos dispostos a admitir.”
Oliver Burkeman, 4000 semanas - Gestão do tempo para mortais
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