domingo, 18 de dezembro de 2016

"Não podemos esquecer que a atitude de espírito científica, no fundo, crê mais em Deus do que a estética. De facto, aquela submeter-se-ia a Ele desde que Ele se dignasse  mostrar-se-lhe nas condições que ela exige para O reconhecer; já os nossos estetas, caso Ele se manifestasse, achariam apenas que o Seu talento não é suficientemente original nem a Sua visão do mundo suficientemente inteligível para o colocar ao mesmo nível dos génios realmente dotados de poder divino."

Robert Musil, O homem sem qualidades I, p. 349

sábado, 17 de dezembro de 2016

"Como acontece com muitos homens que chegaram a uma situação importante, esse sentimento consistia, longe de qualquer egoísmo, num amor profundo pelo que é útil, digamos, a um nível universal e supra-pessoal; por outras palavras, numa veneração sincera por aquelas coisas sobre as quais construímos o que nos é vantajoso, não pela simples razão de o construirmos, mas em harmonia e em concomitância com isso e por razões de ordem geral. Trata-se de uma questão de grande importância: um cão de raça procura o seu lugar debaixo da mesa, insensível aos pontapés, não porque é cão e se rebaixa, mas por dedicação e fidelidade; também na vida os indivíduos frios e calculistas não conseguem metade do êxito alcançado por aquelas almas mais perfeitamente equilibradas capazes de nutrir pelas pessoas e pelas situações que lhes são proveitosas sentimentos verdadeiramente profundos."

Robert Musil, O homem sem qualidades I, p. 40

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

"E, no entanto... se pudesse ter-se dado o caso de voltarem outra vez àquele inocente e venturoso estado que perderam; se alguém os tivesse consultado, perguntando-lhes: «Quereis voltar a ele?», ter-lhe-iam respondido resolutamente que não. A mim, diziam-me: «Bom, seremos mentirosos, maus e injustos; sabemo-lo e lamentamo-lo, e essa é a nossa tortura, e talvez por isso nos atormentemos e castiguemos mais do que faria esse Juiz misericordioso que há-de julgar-nos no futuro, mas cujo nome nos é desconhecido. Mas, em compensação, possuímos a ciência, e graças a ela havemos de tornar a encontrar a verdade, e então aceitá-la-emos já com consciência. O saber está acima do sentimento; o conhecimento da vida... acima da própria vida. A ciência há-de tornar-nos omniscientes; a omnisciência conhece todas as leis, e o conhecimento da lei da felicidade... está acima da própria felicidade.» Era assim que eles me falavam e, a avaliar por tais palavras, cada um deles se tornara mais apreciador de si próprio que dos outros e se valorizava a si próprio mais que tudo no mundo; sim... e não poderia ter sido de outro modo."

Fiódor Dostoiévski, O sonho dum homem ridículo

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

"Um homem que pensa que tudo o que não percebe deve ser desonesto e que, na primeira oportunidade que tiver, está moralmente obrigado a dizer a terceiros o que não tem nada que contar. Como eu digo, se eu pensasse, de cada vez que um homem fizesse qualquer coisa que eu não percebesse, que ele tinha de ser desonesto, creio que não tinha trabalho algum em encontrar naqueles livros, lá no fundo, qualquer coisa em que não se visse alguma utilidade em ir dizer a alguém o que eu pensasse que eles deveriam saber, sobretudo quando tenho alguma razão em suspeitar que eles poderiam saber mais do que eu, e, se o não soubessem, eu não teria nada com isso."

William Faulkner, O Som e a Fúria

domingo, 23 de agosto de 2015

"- Não é a verdade que é sagrada, mas a procura da nossa própria verdade! Haverá acto mais sagrado do que a  auto-inquirição? A minha obra filosófica, dizem alguns, está construída sobre areia: os meus pontos de vista mudam constantemente. Mas uma das minhas máximas é: Transforma-te em quem és. E como descobrir quem e o que se é sem a verdade?"

Irvin D. Yalom, Quando Nietzsche Chorou

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

"- Reparte comigo depressa. E caluda, ouviste?...
Foi numa ocasião destas que Gaitinhas o encontrou.
- Deixa o rapaz.
- Põe-te a mexer, Gaitinhas...
- Se o deixares, dou-te estas nozes e figos.
Gineto parou a fitá-lo, embasbacado. Ainda nenhum repartira com ele, sem pesar. E pela segunda vez Gaitinhas lhe desarmava a maldade. Foi na feira, quando o avisou de que o pai lhe queria bater, e agora, ali...
- Obrigado - murmurou, largando o outro garoto.
Subiram os dois a ladeira do Mirante e foram sentar-se no morro.
- Toma figos - ofereceu Gaitinhas.
- Eu tenho.
- Então para que roubavas?
- Sei lá.
Gineto não quis confessar que não pedia porque o escorraçavam das portas, chamando-lhe ladrão e vadio. Nunca mais esqueceria a tareia que, há um ano, apanhara das mãos do Sr. Castro. Entrara confiante no jardim: - Pão, por Deus...
- Toma lá, rapaz...
E as pancadas deixaram-lhe marcas no corpo, apenas porque apedrejara o caseiro quando fora assaltar a Quinta Alta.
Talvez por isso, por esse castigo cobarde e tardio, é que ele andava assim a escorraçar os garotos com mais sorte.
- Gaitinhas: és meu amigo?
- Sou, pois.
Gineto sorriu. Nunca tivera um amigo assim. Os outros adulavam-no por medo, bem sabia. A não ser o Sagui, todos lhe queriam mal, embora o respeitassem.
Gaitinhas tirou do bolso a gaita de beiços e pôs-se a tocar uma canção em voga, que o companheiro ouviu, embevecido. Não percebia nada de música; mas aquela canção era, decerto, a mais bela do mundo. Sumia-lhe as cicatrizes que o pai do Arturinho lhe deixara no corpo e na alma, e levaram-no para braços amigos que jamais conhecera.
- É bestial, pá! - foi só o que soube dizer, quando Gaitinhas findou.
Pela ladeira do Mirante, a noite ia descendo, devagar. E, devagar, um sentimento bom despontava no peito do Gineto. O silêncio da tarde convidava a confidências. Contaram-nas. Como velhos amigos, descreveram a história das suas vidas curtas, sem história."

Soeiro Pereira Gomes, esteiros

quarta-feira, 15 de julho de 2015

"Um sonho rico e fecundo, visto através de uma luz mística. Eu tinha mergulhado até aquele nível perigoso onde, por puro êxtase e encanto, volta-se ao fungo primário. Eu sabia, embora de maneira nebulosa, sonolenta e estonteante, que devia fazer um esforço hercúleo para retornar à tona. A luta era tremenda, agonizante, formidável. De vez em quando eu conseguia abrir os olhos: e via o meu quarto como que através de um nevoeiro, mas sentia que o meu corpo continuava mergulhado nas profundidades marítimas. Tornar a desmaiar era uma sensação voluptuosa. Eu caía sem parar, sem alcançar o fundo que não tinha fundo e onde, eu mesmo, estava esperando por mim como um tubarão esfomeado. Depois, muito lentamente, recomeçava a subir, a voltar à tona. Era um verdadeiro martírio. Era de cortiça, mas não podia nadar. Quase ao chegar à tona, mergulhava outra vez, arrastado para baixo, cada vez mais para baixo, num desamparo delicioso, sugado por um redemoinho, para ficar aguardando, lá bem no fundo, pela passagem de um tempo quase sem fim - a fim de que a vontade criasse novas forças capazes de me devolverem à tona como se eu fosse uma bóia afundada."

Henry Miller, dias de clichy