domingo, 3 de março de 2013

"Porque, fazendo sair os indivíduos da «crença», os deixou num limbo de «luz fria», e sem perspectivas de redenção. Vale a pena ouvir Llansol, que, em dois parágrafos, sintetiza a problemática do intelectual, da razão que não vê, da aventura do indivíduo moderno - e da sua possível saída do impasse:
«Chegara o momento de arrancar o homem ao aconchego do medo, de lhe dar a provar o gosto da incerteza. A bebida inebriante dos nómadas. A transparência e o absoluto não são lugares para o homem. Era preciso dar-lhe o toque para que se lançasse na grande viagem a que todos aspiravam. O grande êxodo da liberdade e consciência. Eu sempre soube que a razão não serve para ver. Esse, o equívoco da nossa aliança que transformou a liberdade de consciência em conquista, que fez de cada ponto de apoio no território uma fronteira; cada fronteira a delimitar espaços de exploração; cada diferença que encontrava, uma exclusão. E o mundo tornou-se como a razão o escreveu: veloz, exponencial, crítico, memória acumulada de despossessão. [...] A liberdade de consciência é uma fonte inesgotável de angústia e de vontade de rapina. Porque as crenças, quase todas elas, participaram na rapina, à conquista de mais almas, num ódio profundo à liberdade de consciência que, tê-la, é a única maneira de escolher. A crença não vai desistir de usar o medo e o gregarismo, nem a razão vai deixar de jogar a cartada do seu peso político-industrial. E eu pergunto a mim mesmo [a partir daqui é o próprio Texto, a Obra, que fala] - para que serve a liberdade de consciência sem o dom poético? [...] Eu actuo, e não sou prático... Cresço com actos, e sem estratégia. Porque esta é como a crença - enreda a pujança, e definha o homem. Em mim, tudo cresce e nada é meio de nada.» (Llansol: 1994)."

João Barrento, O MUNDO ESTÁ CHEIO DE DEUSES - crise e crítica do contemporâneo

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

"29 de Dezembro

(Eratry, Comentário ao Evangelho segundo S. Mateus).
A simples suspeita de que o subconsciente possa ser Deus - de que Deus viva e fale no nosso subconsciente, bastou para te exaltar.

Se revisses à luz da ideia de Deus todos os pensamentos até aqui esparsos de subconscio, eis que modificarias todo o teu passado e descobririas muitas coisas. Sobretudo a tua dolorosa busca do símbolo iluminar-se-ia graças a um conteúdo infinito.


15 de Junho

«Um pagão de antes de Cristo pode salvar-se se se conforma com o que é naturalmente bom»
Então para que serve a revelação de Cristo?
a) Se aquele que a ouve e a pratica tem mais mérito do que aquele que a não ouve - é uma injustiça.
b) Se aquele que a não ouve, mas pratica naturalmente o bem, tem o mesmo mérito - a revelação é inútil."

Cesare Pavese, Ofício de Viver


quinta-feira, 29 de novembro de 2012

"O estar-fora-do-tempo, disse Austerlitz, que ainda há pouco vigorava tanto nas regiões atrasadas e esquecidas do nosso país como nos continentes por descobrir além-mar, continua a vigorar mesmo numa metrópole temporal, como Londres. Os mortos estão fora do tempo, os moribundos e todos os doentes, em casa ou nos hospitais, e não apenas estes, basta um tanto de infelicidade pessoal para nos separar do passado e do futuro. Na verdade, disse Austerlitz, nunca possuí qualquer relógio, de parede ou despertador, de bolso e muito menos de pulso. Os relógios sempre me deram vontade de rir, coisa basicamente mentirosa, talvez porque sempre resisti ao poder do tempo graças a um impulso interior que eu próprio não entendo muito bem, sempre me fechei à chamada actualidade, na esperança, penso eu hoje, disse Austerlitz, de que o tempo não passe, não seja passado, de poder ir atrás dele, de encontrar à chegada tudo como dantes, ou, melhor dizendo, de descobrir que todos os momentos do tempo existiram simultaneamente, caso em que nada do que a história conta seria verdade, os acontecimentos não aconteceram, estão à espera de acontecer no momento em que pensarmos neles, embora, naturalmente, a perspectiva pouco animadora de eterna infelicidade e interminável dor fique assim em aberto."

W. G. Sebald, Austerlitz

domingo, 25 de novembro de 2012

"Aquela satisfação, aquele espanto, que se opunham, opunham-se completamente, ao aborrecimento, muitas vezes apenas são experimentados depois das pessoas envolvidas terem passado por situações em que tiveram medo e sofreram perdas. No entanto, quanto a mim, depois de se ter contacto com estas sensações, dificilmente elas serão esquecidas; são como relâmpagos e jorros de uma luz paradisíaca a incidir sobre locais e momentos únicos.
Os aldeões reconstruiram a aldeia, e os objectos que tinham sido salvos, na casa que se tinha salvo, ficaram entre novas casas em cujos jardins novas flores e vegetais germinaram, e novos espécimes foram plantados. O povo começou a contar histórias sobre a vinda dos vermes, montanha abaixo, e também essas histórias eram o oposto do aborrecimento. Tornaram interessantes, excitantes, quase belos, a cinza e o fedor, o esmagar e engolir. As lendas falavam de algumas coisas mas calavam outras. Jack contava a bravura impetuosa de Harry, correndo em direcção ao mar de fumo para salvar o seu porco, mas ninguém falava da tristeza diária provocada pela esperança no seu regresso, que diminuia lentamente. Enalteceu-se o facto de o porco ter tido muita destreza e ter-se conseguido recompor mas não se falou dos maus bocados por que ele teve de passar, naqueles dias tão duros. E estas lendas, construídas a partir do contentamento daquelas pessoas perante a sua própria sobrevivência tornaram-se, com o tempo para os seus filhos e netos, armas contra o aborrecimento e a monotonia estabelecendo uma ligação misteriosa entre a paz, a beleza e o terror."

A. S. Byatt, O caixão de vidro

domingo, 18 de novembro de 2012

"- Os meus amores de um instante valem por amores de um século. Mas, por felicidade, ninguém me segue e eu não tenho tempo de criar essa habilidade a partir da qual se engendra o ciúme. Isso, ria-se! Não tema o devir nem a morte. Nunca se tem a certeza de morrer. Julga então que eu sou o único que não morreu! Lembre-se de Enoch, de Elias, de Empedócles, de Apolónio de Tirana. Será que já ninguém neste mundo acredita que Napoleão continua vivo? E esse desafortunado rei da Baviera, Luís II? Pergunte aos bávaros. Todos afirmarão que o seu rei magnífico e louco vive ainda. Você, você mesmo, não morrerá talvez."

Guillaume Apollinaire, O Heresiarca e C.ª

sábado, 17 de novembro de 2012

"Mas no seu coração acendia-se novo inferno: o mais terrível de todos, aquele onde as serpentes mordem o próprio coração com os dentes aguçados, nele infiltrando a peçonha mais corrosiva: o inferno do ciúme.
Ao ver Anhelete tão fresca e gentil, tão inocentemente feliz, ao vê-la no momento exacto em que ela ia passar a ser pertença de outro, Teobaldo, que havia três meses não pensava sequer nela, que não tinha intenção de cumprir a promessa que lhe fizera, Teobaldo convenceu-se de que nunca deixara de a amar.
Afigurou-se-lhe que Anhelete lhe havia jurado fidelidade ou que Engoulevent lhe estava a arrebatar o que era propriedade sua.
Quase saltou para fora do esconderijo, censurando à jovem a sua traição.
Anhelete, agora que se lhe esquivava, adquiria aos olhos de Teobaldo virtudes, qualidades, vantagens que ele não tinha suspeitado no momento em que, para as possuir, lhe teria bastado uma palavra.
Depois de ter experimentado todas as decepções que tinha experimentado, depois de perder aquilo que ele considerava o seu tesouro, aquilo de que a qualquer momento se poderia apoderar, pois não lhe passava pela cabeça que outro lho pudesse cobiçar, pareceu-lhe a última das partidas do destino.
Por ser mudo, o seu  desespero não foi mais profundamente triste: mordia as mãos, batia com a cabeça no tronco da árvore. Chorava e soluçava.
Mas tais lágrimas e suspiros não eram daqueles que, enternecendo o coração, servem de transição entre um mau sentimento e um bom: não, tais lágrimas e suspiros, então mais inspirados pela fúria e pela raiva que pelo o arrependimento, tais lágrimas e suspiros não lograram expulsar o ódio da alma de Teobaldo.
Até parecia que uma parte das lágrimas se derramava para fora, enquanto outra parte escorria para dentro, caindo-lhe sobre o coração como outras tantas gotas de fel.
Convencera-se de que adorava Anhelete."

Alexandre Dumas, O Lobisomem