sábado, 18 de maio de 2013

"Agora os vizinhos percebiam que haviam presenciado uma grande maravilha. Sabiam que o tempo passaria a contar-se a partir do aparecimento da pérola de Kino e que aquele momento seria falado por muitos anos. E que, quando aquelas coisas pertencessem ao passado, contariam como Kino olhava, o que dizia, como os olhos lhe brilhavam, e diriam: «Era um homem transfigurado. Foi-lhe concedido um poder que começou naquele dia. Vejam em que grande homem se tornou. Vi tudo isso com os meus próprios olhos».
E se os projectos de Kino se não realizassem, aqueles mesmos vizinhos haviam de dizer: «Começou assim. Apoderou-se dele uma loucura tal que dizia os maiores disparates. Que Deus nos livre disso! Sim, Deus castigou Kino porque ele se revoltou contra o destino. Vejam em que se tornou. Eu próprio estava presente quando perdeu a razão!»"

John Steinbeck, A Pérola

domingo, 3 de março de 2013

"Porque, fazendo sair os indivíduos da «crença», os deixou num limbo de «luz fria», e sem perspectivas de redenção. Vale a pena ouvir Llansol, que, em dois parágrafos, sintetiza a problemática do intelectual, da razão que não vê, da aventura do indivíduo moderno - e da sua possível saída do impasse:
«Chegara o momento de arrancar o homem ao aconchego do medo, de lhe dar a provar o gosto da incerteza. A bebida inebriante dos nómadas. A transparência e o absoluto não são lugares para o homem. Era preciso dar-lhe o toque para que se lançasse na grande viagem a que todos aspiravam. O grande êxodo da liberdade e consciência. Eu sempre soube que a razão não serve para ver. Esse, o equívoco da nossa aliança que transformou a liberdade de consciência em conquista, que fez de cada ponto de apoio no território uma fronteira; cada fronteira a delimitar espaços de exploração; cada diferença que encontrava, uma exclusão. E o mundo tornou-se como a razão o escreveu: veloz, exponencial, crítico, memória acumulada de despossessão. [...] A liberdade de consciência é uma fonte inesgotável de angústia e de vontade de rapina. Porque as crenças, quase todas elas, participaram na rapina, à conquista de mais almas, num ódio profundo à liberdade de consciência que, tê-la, é a única maneira de escolher. A crença não vai desistir de usar o medo e o gregarismo, nem a razão vai deixar de jogar a cartada do seu peso político-industrial. E eu pergunto a mim mesmo [a partir daqui é o próprio Texto, a Obra, que fala] - para que serve a liberdade de consciência sem o dom poético? [...] Eu actuo, e não sou prático... Cresço com actos, e sem estratégia. Porque esta é como a crença - enreda a pujança, e definha o homem. Em mim, tudo cresce e nada é meio de nada.» (Llansol: 1994)."

João Barrento, O MUNDO ESTÁ CHEIO DE DEUSES - crise e crítica do contemporâneo

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

"29 de Dezembro

(Eratry, Comentário ao Evangelho segundo S. Mateus).
A simples suspeita de que o subconsciente possa ser Deus - de que Deus viva e fale no nosso subconsciente, bastou para te exaltar.

Se revisses à luz da ideia de Deus todos os pensamentos até aqui esparsos de subconscio, eis que modificarias todo o teu passado e descobririas muitas coisas. Sobretudo a tua dolorosa busca do símbolo iluminar-se-ia graças a um conteúdo infinito.


15 de Junho

«Um pagão de antes de Cristo pode salvar-se se se conforma com o que é naturalmente bom»
Então para que serve a revelação de Cristo?
a) Se aquele que a ouve e a pratica tem mais mérito do que aquele que a não ouve - é uma injustiça.
b) Se aquele que a não ouve, mas pratica naturalmente o bem, tem o mesmo mérito - a revelação é inútil."

Cesare Pavese, Ofício de Viver


quinta-feira, 29 de novembro de 2012

"O estar-fora-do-tempo, disse Austerlitz, que ainda há pouco vigorava tanto nas regiões atrasadas e esquecidas do nosso país como nos continentes por descobrir além-mar, continua a vigorar mesmo numa metrópole temporal, como Londres. Os mortos estão fora do tempo, os moribundos e todos os doentes, em casa ou nos hospitais, e não apenas estes, basta um tanto de infelicidade pessoal para nos separar do passado e do futuro. Na verdade, disse Austerlitz, nunca possuí qualquer relógio, de parede ou despertador, de bolso e muito menos de pulso. Os relógios sempre me deram vontade de rir, coisa basicamente mentirosa, talvez porque sempre resisti ao poder do tempo graças a um impulso interior que eu próprio não entendo muito bem, sempre me fechei à chamada actualidade, na esperança, penso eu hoje, disse Austerlitz, de que o tempo não passe, não seja passado, de poder ir atrás dele, de encontrar à chegada tudo como dantes, ou, melhor dizendo, de descobrir que todos os momentos do tempo existiram simultaneamente, caso em que nada do que a história conta seria verdade, os acontecimentos não aconteceram, estão à espera de acontecer no momento em que pensarmos neles, embora, naturalmente, a perspectiva pouco animadora de eterna infelicidade e interminável dor fique assim em aberto."

W. G. Sebald, Austerlitz

domingo, 25 de novembro de 2012

"Aquela satisfação, aquele espanto, que se opunham, opunham-se completamente, ao aborrecimento, muitas vezes apenas são experimentados depois das pessoas envolvidas terem passado por situações em que tiveram medo e sofreram perdas. No entanto, quanto a mim, depois de se ter contacto com estas sensações, dificilmente elas serão esquecidas; são como relâmpagos e jorros de uma luz paradisíaca a incidir sobre locais e momentos únicos.
Os aldeões reconstruiram a aldeia, e os objectos que tinham sido salvos, na casa que se tinha salvo, ficaram entre novas casas em cujos jardins novas flores e vegetais germinaram, e novos espécimes foram plantados. O povo começou a contar histórias sobre a vinda dos vermes, montanha abaixo, e também essas histórias eram o oposto do aborrecimento. Tornaram interessantes, excitantes, quase belos, a cinza e o fedor, o esmagar e engolir. As lendas falavam de algumas coisas mas calavam outras. Jack contava a bravura impetuosa de Harry, correndo em direcção ao mar de fumo para salvar o seu porco, mas ninguém falava da tristeza diária provocada pela esperança no seu regresso, que diminuia lentamente. Enalteceu-se o facto de o porco ter tido muita destreza e ter-se conseguido recompor mas não se falou dos maus bocados por que ele teve de passar, naqueles dias tão duros. E estas lendas, construídas a partir do contentamento daquelas pessoas perante a sua própria sobrevivência tornaram-se, com o tempo para os seus filhos e netos, armas contra o aborrecimento e a monotonia estabelecendo uma ligação misteriosa entre a paz, a beleza e o terror."

A. S. Byatt, O caixão de vidro

domingo, 18 de novembro de 2012

"- Os meus amores de um instante valem por amores de um século. Mas, por felicidade, ninguém me segue e eu não tenho tempo de criar essa habilidade a partir da qual se engendra o ciúme. Isso, ria-se! Não tema o devir nem a morte. Nunca se tem a certeza de morrer. Julga então que eu sou o único que não morreu! Lembre-se de Enoch, de Elias, de Empedócles, de Apolónio de Tirana. Será que já ninguém neste mundo acredita que Napoleão continua vivo? E esse desafortunado rei da Baviera, Luís II? Pergunte aos bávaros. Todos afirmarão que o seu rei magnífico e louco vive ainda. Você, você mesmo, não morrerá talvez."

Guillaume Apollinaire, O Heresiarca e C.ª