segunda-feira, 12 de março de 2012
domingo, 11 de março de 2012
" Senti a sua testa deslizar pelo meu ombro num sinal de denegação.
- Isaías ainda não nasceu, David. Basta-me vê-lo e ouvi-lo para saber que me é impossível amá-lo e muito menos deitar-me na sua cama.
Eu já não conseguia proferir uma palavra e mal conseguia respirar. As palavras de Eva abatiam-se sobre o meu coração como granizo. Tinha de me conter para não a abraçar, apertar contra mim e beijar-lhe os lábios, gritando que tinha razão. Que o seu pai e Jacob tinham pecado, que eu tinha pecado com eles e até, à minha maneira, mais do que eles.
Forcei-me, pelo contrário, a pensar no caos que se precipitava na nossa direcção como a pedra de uma fisga. Obriguei-me a mentir a mim próprio. A acreditar que não havia outra saída senão essa promessa.
Porém, Eva era feita de intransigência e de juventude. Nem uma parcela da sua alma se deixaria corromper pela mentira.
- Tudo o que não posso fazer com Isaías fá-lo-ia contigo, chorando de alegria, David. Tu sabes. Cheguei a sonhar que terias coragem para isso. Mas sei bem que não.
- Eva, não deves...
Tapou-me a boca com os dedos.
- Isaías ainda não nasceu, David. Basta-me vê-lo e ouvi-lo para saber que me é impossível amá-lo e muito menos deitar-me na sua cama.
Eu já não conseguia proferir uma palavra e mal conseguia respirar. As palavras de Eva abatiam-se sobre o meu coração como granizo. Tinha de me conter para não a abraçar, apertar contra mim e beijar-lhe os lábios, gritando que tinha razão. Que o seu pai e Jacob tinham pecado, que eu tinha pecado com eles e até, à minha maneira, mais do que eles.
Forcei-me, pelo contrário, a pensar no caos que se precipitava na nossa direcção como a pedra de uma fisga. Obriguei-me a mentir a mim próprio. A acreditar que não havia outra saída senão essa promessa.
Porém, Eva era feita de intransigência e de juventude. Nem uma parcela da sua alma se deixaria corromper pela mentira.
- Tudo o que não posso fazer com Isaías fá-lo-ia contigo, chorando de alegria, David. Tu sabes. Cheguei a sonhar que terias coragem para isso. Mas sei bem que não.
- Eva, não deves...
Tapou-me a boca com os dedos.
- Sei tudo o que podes dizer. Sei tudo o que pensas. E não te quero mal por isso. É assim. não te peço mais nada a não ser que não deixes de me amar. E quando eles se atirarem contra mim, deves continuar a amar-me.
Não tive tempo para protestar. Os seus lábios substituíram os seus dedos. Um beijo que, num abrir e fechar de olhos, me fez acreditar que o universo era ainda mais vasto do que concluira aquando das minhas viagens.
Depois Eva desapareceu na noite. As rãs deixaram bruscamente de cantar. Tantos séculos depois, ainda ouço cada um dos seus passos. Durante um momento, foi estranho. Parecia que ela ia desaparecer por entre o brilho das estrelas e que eu devia correr atrás dela."
Depois Eva desapareceu na noite. As rãs deixaram bruscamente de cantar. Tantos séculos depois, ainda ouço cada um dos seus passos. Durante um momento, foi estranho. Parecia que ela ia desaparecer por entre o brilho das estrelas e que eu devia correr atrás dela."
Marek Halter, "O Cabalista de Praga"
terça-feira, 6 de março de 2012
"Existem, para qualquer ser humano, palavras que lhe são mais íntimas e queridas do que todas as outras. E então, muitas vezes, encontramos inesperadamente num recanto perdido, no deserto dos desertos, uma pessoa que nos fala ao coração, que nos faz esquecer o caminho inclemente e as pousadas inóspitas, e nos faz esquecer o desvirtuado barulho moderno, e as mentiras desavergonhadas que nos lançam na confusão. E para sempre se grava na nossa memória uma conversa assim, nocturna, e a nossa fiel memória tudo guardará: quem estava presente, onde estava sentado, o que tinha nas mãos, as paredes, os cantos, a mais pequena bugiganga."
Nikolai Gógol, "Almas Mortas"
(Tive vontade de transcrever, para aqui, o livro todo mas depois pensei que talvez não fosse uma boa ideia)
domingo, 4 de março de 2012
"Daisy há-de ter ficado aquém do sonho - não por culpa dela, mas devido à colossal vitalidade da própria ilusão. Tudo a tinha ultrapassado, ultrapassado tudo. O Gatsby precipitara-se todo inteiro naquele sonho, com toda a sua paixão criadora, acrescentando-o hora a hora, ornando-o de todas as plumas e pedrarias de cor que de caminho lhe surgiam. Não há fogo nem refrigério, por grandes que sejam, que possam aceitar o repto de todos os fantasmas ocultos no coração do homem."
"O Gatsby acreditara na luz verde, no orgíaco futuro que, ano após ano, foge e recua diante nós. Se hoje nos iludiu, pouco importa: amanhã correremos mais depressa, alongaremos mais os braços... Até que uma bela manhã...
Assim vamos teimando, proas contra a corrente, incessantemente cortando as águas, a caminho do passado que não volta."
F. Scott Fitzgerald, "O Grande Gatsby"
"O Gatsby acreditara na luz verde, no orgíaco futuro que, ano após ano, foge e recua diante nós. Se hoje nos iludiu, pouco importa: amanhã correremos mais depressa, alongaremos mais os braços... Até que uma bela manhã...
Assim vamos teimando, proas contra a corrente, incessantemente cortando as águas, a caminho do passado que não volta."
F. Scott Fitzgerald, "O Grande Gatsby"
domingo, 26 de fevereiro de 2012
"À despedida, o progenitor não verteu lágrimas, abriu mão de cinquenta copeques em cobres para as despesas e guloseimas e, muito mais importante, de uns sábios preceitos: «Vê lá, Pavlucha, se estudas, se não fazes asneiras, se não és mandrião; sobretudo, usa de lisonja para com professores e superiores. Se agradares aos superiores, mesmo que não faças progressos nos estudos e mesmo que Deus te não tenha dado grandes talentos, andarás para a frente e ultrapassarás os outros todos. Não faças amizade com os colegas, eles não têm nada de bom para te ensinar; mesmo assim, caso faças alguma amizade, que seja com os mais ricos, para te ajudarem se for preciso. Não presenteies ninguém, faz antes com que os outros te presenteiem e, em primeiro lugar, poupa o teu copeque: é essa a coisa mais segura no mundo. O colega ou o amigo vão aldrabar-te e serão os primeiros a trair-te na desgraça, mas já o copeque te será sempre fiel em todos os contratempos. Valendo-te do copeque, tudo farás.»"
Nikolai Gógol, "Almas Mortas"
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
"Desde o primeiro sopro que assim é: a palavra é o tempo de vida dos humanos.
É evidente que nós, mulheres, homens, crianças ou velhos, somos palavras de carne, movimentos de carne, vidas e emoções de carne. E o tempo que passa nessas carnes foge e consome-as na sua dissipação. Reduz a mais sublime das matérias, a pele sedosa e a tez rósea, a esse nada de pó que um sopro infantil consegue dispersar.
O Verbo, porém, é imortal. Não sucumbiu a nenhum furor, nenhuma massa o destruiu; nenhuma fogueira, nem mesmo as mais dementes de séculos ricos em massacres, o consumiu. Surgiu com o espírito do ser humano, não com a sua carne. E nunca, nunca desde o primeiro dia, se calou.
Nada se cria fora do Verbo, tudo sucumbe na sua presença. São fracos os que o ignoram; são grandes os que sabem inclinar-se perante esse poder. Humanos, simples humanos, acreditamos que só a carne gera carne. Que cegueira, que ignorância! A respiração, os batimentos do coração repleto de sangue são igualmente fruto das palavras que o Eterno colocou na nossa boca."
Marek Halter, "O Cabalista de Praga"
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
Subscrever:
Mensagens (Atom)